terça-feira, 16 de junho de 2026

Livros de ontem e de hoje - parte III


E chegamos agora aos clássicos populares, a famosa subliteratura, "lixo literário" como diziam na minha época. Os famosos "romances de banca", histórias românticas, curtas, com capa de fotos (e depois desenhos) duvidosos, que foram febre nos anos 80 e 90.  Fiz até meu TCC na faculdade sobre isso. E não importavam as críticas, esses romances eram lidos, relidos e trocados entre as leitoras até a exaustão. 
  
Os romances de banca foram de vários tipos, e existem há muitos anos. Incontáveis anos, que incentivaram milhões de pessoas ao saudável hábito da leitura. Afinal, "ninguém começa a ler por Macunaíma", como eu escrevi em meu TCC.

Eram romances atuais (para a época), chamados Júlia, Sabrina e Bianca, com capas de casais felizes fotografados, pela editora Nova Cultural.


Depois ilustradas, já nos anos 90, alguns na editora Harlequin. Tinha muito livro, edições que deixavam a gente louca para comprar e colecionar. Coleção signos, coleção cowboys, ou seja, homens de determinados signos - foram 12 livros essa coleção - ou cowboys envolvidos em romances quentes. Alguns só sugeriam cenas explícitas, outros descreviam melhor, mas nenhum deles chegava a ser impróprio.

Depois vieram os clássicos românticos e os clássicos históricos, histórias maiores e mais elaboradas, e no caso dos clássicos históricos, romances de época: escoceses das terras altas, americanos na época da colonização, Inglaterra Vitoriana, etc. 

No início, a maioria focava na protagonista, como uma forma de identificação feminina. No entanto, é nítida a diferença entre os períodos. Num desses romances dos anos 70/80, a protagonista é dependente, chorona e submissa a certas humilhações. Acende um cigarro após o outro para se acalmar, tudo gira em torno da aceitação familiar do par romântico e da virgindade, supervalorizada para a época.

Nos anos 80/90 essa postura dá uma guinada, e temos então mulheres saudáveis (que no máximo bebem uma taça de vinho), preocupadas com independência financeira e o homem surge como um parceiro. Nem todas mostram mais mulheres virginais, isso passa a segundo plano.

No final dos anos 90 e início dos anos 2000, esses romances passam a mostrar tanto uma narrativa feminina quanto masculina. As personagens de ambos os sexos dividem a narrativa nos capítulos, embora o narrador onisciente ainda esteja presente.
Homens em seu segundo relacionamento, mulheres também, reencontrando o amor, superando dificuldades. Mulheres empresárias ou com uma carreira sólida, fortes, que contratam homens para serem seus funcionários. A preocupação com a virgindade foi esquecida, e temos homens fisicamente fortes, mas com insegurança sobre relacionamento. 
Obviamente esse é um apanhado geral, podemos encontrar de tudo nesses livrinhos.

Clássicos românticos eram mais longos e com histórias mais complexas. E os meus preferidos, clássicos históricos, tem coleções de uma mesma autora que são ícones, pois seus romances tem "continuação". Histórias de irmãos que se casam com mulheres ferozes, brigas, traições na corte real e um amor perfeito no final. 
As principais eram Ruth Langan, Miranda Jarrett e Deborah Simmons, tendo esta última escrito sobre os irmãos De Burgh, cuja saga costumava ser disputada à tapa. 
Ambientadas na época medieval, eram muito bem escritas, detalhadas, algumas misturavam fatos históricos em seus romances. A maioria delas mostra ficção entre fatos históricos. Num dos meus preferidos, a história gira em torno de protagonistas que frequentam a corte de Henrique VIII. Os detalhes de suas vidas em torno do famoso rei são muito bem narrados. 


Falando em época histórica, não posso deixar de mencionar Barbara Cartland, nascida em 1901 e falecida em 2000, aos 98 anos. Seus livretos até hoje têm romances realmente felizes.
A fórmula é quase sempre a mesma: menina pobre, de família aristocrática, conhece um duque/conde/marquês libertino e conquista seu afeto, modificando seu caráter, de pervertido para homem fiel. A virgindade era 100% obrigatória.

Essa coleção se chamava "as jóias da coroa de Barbara
Cartland", eram edições de luxo, capa dura, com a
reedição das melhores histórias.

Barbara foi aquela que complicou nossas vidas, pois quando líamos seus livros, imaginávamos o amor ideal, romântico. Nunca esperei um príncipe da Disney, pois passei anos procurando um Duque de Bárbara. 😂😂😂

Outro formato de capa antigo

E não pense que as histórias eram ruins! Ela era uma fonte inesgotável de sabedoria, por causa dela eu resolvi estudar sobre mitologia grega, celta, hindu, ler sobre os cavalos árabes egípcios, sobre a vida dos beduínos, sobre os haréns, sobre a qualidade dos cavalos e cavaleiros húngaros, sobre os ciganos do leste europeu; ela falava de personalidades, locais e rituais que existiram de fato, como estilistas famosos, reis e seus hábitos, pintores e compositores famosos, príncipes regentes e seus gastos, guerras em locais remotos onde a Inglaterra tinha colônias, espiões de organizações de 1800, agentes secretos e intrigas palacianas. Bárbara foi uma fonte inesgotável de cultura geral. Ela abria seus livros com algumas explicações básicas sobre o que iríamos encontrar na trama.

Alguns exemplares dessas edições tinha capas mais duras, de papelão

Com o passar dos anos, a querida Bárbara foi escrevendo cada vez menos e a decadência de sua escrita era nítida. Histórias que se repetiam, poucos dados históricos, heroínas e heróis fracos. Mas seu legado foi inestimável nos pequeninos romances de banca. Os melhores ainda são os de capa dura ou desenhados. Se tiver que adquirir um, nunca compre aqueles com fotos de mulheres na capa (a história deve ser a mesma, mas as capas são o primor mágico da história). 
deve ser reedição, mas o atrativo
das capas se perde nessas
edições. 

Pior que estou aqui pesquisando as capas e achei vários que eu li (e ainda tenho guardados) e vários que eu teria amado ler, quem sabe encontro em sebo? 😍😍😍😍😍

(Achei um pela capa, sobre um casal de irmãos gêmeos, filhos de um rei dos Balcãs, que são prometidos em casamento, e fogem para "uma semana de liberdade antes do compromisso", e a irmã vai de "amante" do irmão, mas conhece um duque e se apaixona, e precisa voltar correndo para casa, pois o "noivo" aparece de repente no palácio, e ela, que se apaixonou pelo Duque, toda cabisbaixa, descobre que ele é o tal príncipe que ela foi prometida, e que TAMBÉM resolveu tirar uma semana de folga antes do casamento, essa história é muuuito fofa). 

a história dos gêmeos dos Bálcãs

Enfim, deixa eu voltar pra Terra. 

Esses livros, todos eles, tem uma narrativa coesa, simples, alguns tem tramas mais envolventes, outros tem alívio cômico, fatos históricos da época, quando são atuais, falam de locais conhecidos, tem descrições precisas. As pessoas são normais, quando falam em riqueza, falam de ostentação, "valores astronômicos", nunca são citados valores reais (com exceção de Barbara que fala em valores da época em libras e os romances americanos que falam em dólares).
Estou aqui lembrando, se eu achar eu tiro uma foto da capa, uma coleção bem antiga, tinha o romance escrito por uma brasileira, a família morava em São Paulo, duas primas que foram passear na Bélgica e conhecem um príncipe, pensa numa história legal!
Essas edições também eram capa de papelão



As tramas tinham uma boa introdução, tudo era explicado, quem eram os personagens, de onde vinham, quais as famílias, onde se passa a história, o que faziam para viver, se eram donos de algum comércio, empresa, fazenda... Tinham também os misteriosos, aqueles caras que surgiam do nada e, depois, seu mistério era desvendado para poderem se encaixar na vida da protagonista.

Pessoas que se conheceram na infância ou foram vizinhos durante anos, se reencontrando depois de adultos. 
Como eu disse, histórias curtas, que davam empolgação ao ler. No final, ainda que os protagonistas não se casassem, você terminava a leitura satisfeita, sabendo que havia amor e a enorme probabilidade de todos ficarem juntos.

Inclusive, usavam temas polêmicos. Nos anos 90, li sobre as puppy mills num desses livros – o homem era um protetor animal cheio de filhos que atrai uma economista finíssima da bolsa de valores, que fugia de famílias numerosas por um trauma familiar do passado.
Outro livro interessantíssimo, sobre os abrigos exclusivos para greyhounds de corrida, os projetos para captura, doma e adoção de mustangs, os campeonatos de cozinha itinerantes... Tudo isso é abordado nos pequenos livretos de banca. 

Existiu ainda um segmento de romances, que quem gostava era minha mãe: ZZ7, livros de bolso sobre espionagem da década de 60 em plena guerra fria, onde a protagonista era Brigitte “Baby” Montford, uma agente da CIA letal, em missões dignas de James Bond. 
Foram editados dos anos 60 até os 90. Brigitte tinha uma história, era filha de Giselle Montford (criação de David Nasser, um grande sucesso literário de 1948, “Memórias secretas de Giselle, a espiã nua que abalou Paris”) com um estrategista nazista chamado Fritz Bierrenbach. As capas das edições brasileiras mostram uma linda jovem, inspirada na socialite carioca Maria de Fátima Priolli. 


Eu lia avidamente suas aventuras, e me influenciaram tanto a ponto de meu primeiro dobermann ter o nome de um dos personagens que capturou, torturou e morreu nas mãos de Baby: Grigory Melchenko. 

Dito tudo isso, entenda, leitor, que a cultura dos livros de banca, a subliteratura, sempre existiu e sempre existirá. Dentro de cada geração existe aquela editora que vai publicar uma história rápida, dinâmica, envolvente, para atrair seus leitores. 

Para saber mais sobre as causas do declínio dos romances de banca, leia esse artigo.

Parte IV

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