Gostaria de deixar registrada aqui, minha profunda indignação com as porcarias literárias que estão sendo publicadas nos dias de hoje.
E por "dias de hoje" eu quero dizer que desde o início dos anos 2000 a qualidade da escrita caiu bastante.
Desde as traduções, mal feitas, passando pelas adaptações de livros clássicos, que tiraram toda a graça das histórias, até a criação de novas narrativas.
A maioria dos livros das décadas de 60 e 70 foi reeditada nos anos 80. Li alguns livros dos anos 60, algumas edições da Coleção Saraiva, minha tia Nenê tinha vários livros e sempre que eu ia em sua casa, pegava para ler. Tinha também atlas antigos e enciclopédias sobre determinados assuntos - animais, plantas, etc.
Dois que eu li muito lá foram Beleza Negra e Os meninos da Rua Paulo. Na verdade, eu gostei tanto que pedi emprestado e nunca devolvi Beleza Negra – e ela nunca sentiu falta.
Um dia, tia Nenê reformou a sala, vendeu a enorme estante e os livros foram embora - guardou alguns, mas nenhum dos que eu lia - e fiquei triste, pois ela poderia ter me dado os livros. Disse que nem sonhava que eu poderia querer "aqueles livros velhos". 😭
Ela havia guardado poucos, e me deu um, Shardik, de Richard Adams, que, no entanto, não consegui terminar. Não era ruim, mas não me adaptei ao estilo: o livro se passa num tempo-espaço sem definição e eu não gosto de livros assim. Falei dele com a Carol e ela foi na biblioteca, leu em 3 dias, amou.
Anos depois, comprei uma edição recente de Beleza Negra, que veio numa capa mais simples, com nome diferente, mas ainda assim, uma boa adaptação: Diamante Negro, da coleção Terramarear, cuja tradução original fora feita por Monteiro Lobato e reeditada nos anos 80.
Tive ainda "Caninos Brancos", de Jack London, da mesma coleção. Lendo uma análise sobre esse livro, descobri que London escreveu mais livros e fui atrás de "Chamado Selvagem", uma edição traduzida pela genial Clarice Lispector. Nesse mesmo estilo, adquiri "Nômades do Norte", de J. O. Curwood, cuja escrita lembra muito Jack London, com tradução de Manuel Bandeira. Um deleite para os olhos.
Ganhei de meu avô dois livros que guardo ainda hoje (embora eu não tenha me desfeito de nenhum desses citados), "Os Três Mosqueteiros", cuja capa é um pedaço do quadro de Rembrandt, "Ronda Noturna", da editora Scipione. Impossível achar para comprar essas duas edições, que perfazem o romance inteiro. Ganhei com 13 anos, li, e tive que reler anos depois para entender determinados trechos, de tão rebuscada era a linguagem. Dumas levou um parágrafo inteiro introduzindo o cavalo de D'artagnan, o qual inclusive é motivo da briga entre ele e Richelieu na taverna.
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| Ronda Noturna - Rembrandt |
Tendo em mãos este livro, que se encontra todo remendado, o pobre, decidi adquirir outro, e não encontrei nada que me agradasse. Meu exemplar é em dois volumes, lindamente adaptados em dois filmes de 1973 e 1974 (com um primoroso elenco, fielmente caracterizado, em uma das melhores filmagens deste romance), porém atualmente só encontrei um volume e, pelo final (sim, eu olho o início e o fim do livro) conseguiram espremer esses dois volumes em um só. Me dá náuseas.
Até as adaptações de antigamente eram melhores. Os clássicos Sem Família (Hector Malot) e Jane Eyre (Charlotte Brönte) que li, eram de uma coleção de livros pequenos, quase de bolso. Percebi que eram adaptações, pois um dia comprei Jane Eyre original e tinha trechos lá que eu não me recordava da minha primeira leitura. Mas que em nada comprometeram a história (ou de repente eu realmente não lembrava mesmo). Sem família eu achei tão, mas tão triste que não consegui reler.
Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, o primeiro que li era muito antigo, e consegui uma edição dos anos 90 ótima, fiel.
Sobre os clássicos estrangeiros (Senhor dos Anéis que, pelo que me consta, nunca foi modificado) ou os brasileiros (Jorge Amado e Érico Veríssimo levantariam do túmulo se mexessem em seus textos), Clarice Lispector; dos recentes (Harry Potter, por exemplo), pois tem uma forma de comunicação atual; permanecem atemporais e sem modificações desnecessárias. Podemos pegar os livros da "Coleção Vagalume", que até hoje são lembrados com amor; "Para gostar de ler", crônicas nacionais. Todos esses passaram pelos anos inalterados, se soubermos procurar em bons sebos.
Alguns livrinhos do meu ensino médio eu guardei: A oitava série C, de Odete de Barros Mott (coleção jovens do mundo todo), Tão perto do céu (Teresa Noronha, mesma coleção), Pantanal, amor-baguá (José Hamilton Ribeiro), Saudade (Tales de Andrade) todos livros que eu fui obrigada a ler, e aprendi a amar. Confissões de um vira lata (Orígenes Lessa), por exemplo, eu adoro. Clássicos da coleção vagalume, como O Mistério do Cinco Estrelas, o Rapto do Garoto de Ouro, Um cadáver ouve rádio, Éramos seis, A Ilha Perdida – todos guardados em casa.
Carol leu alguns desses livros e gostou muito. São ótimos para se iniciar uma leitura.
Parte II

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