Parte III
Estamos em 2026.
Ontem eu reassisti “o Homem Bicentenário” de 1999. O Robô Andrew chega à casa dos Martin em 2005 e é desligado 200 anos depois. Ao longo do filme, vemos como o script imagina que estará o futuro: com androides, carros voadores e roupas feias.
Nada poderia estar mais longe da verdade. Nosso futuro parece mais com as ruas escuras e sujas de Blade Runner (que teoricamente se passa em 2019), porém sem a tecnologia futurista.
Aliás, nosso futuro está bem mais próximo de Interestelar, com governos negando fatos e criando narrativas fantasiosas para encobrir verdades desconfortáveis.
A educação e a cultura ficaram em segundo – quiçá terceiro – plano na vida humana. Os problemas agora não são “saber ler, estudar, ter uma profissão, formar família”, são “direitos de minorias” com falácias cansativas sobre uma pseudo igualdade e representatividade em tudo: livros, filmes, séries, teatro. A mudança de etnia e sexualidade de personagens clássicos ou queridos fez com que tudo esteja extremamente cansativo de assistir – e esse problema chegou aos livros.
A literatura de banca – que não é mais de banca – vem hoje em forma de aplicativos de smartphones, e ou você paga, ou assiste propagandas e vai liberando capítulos.
Como o modelo funciona por venda de capítulos (usando moedas virtuais), um livro longo de 500 capítulos pode acabar custando de R$100,00 a mais de R$300,00 para ser lido por completo. Isso acaba tornando a leitura em app muito mais cara do que comprar um livro físico ou assinar serviços como o Kindle Unlimited. Sabe aquela frase, "todo dia um esperto e um trouxa saem de casa..."? Pois é...
O uso de bônus diários, roletas e missões para ganhar moedas de centavo em centavo é criticado por usar táticas de gamificação psicológica para viciar o leitor e induzi-lo a gastar por impulso. Quando fomos para o Paraguai ano passado eu estava começando a ler nesses apps e passava horas assistindo propagandas, a noite, para liberar capítulos. Não podia perder os bônus diários!
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O problema é que são histórias escritas por essa geração Z insuportável, sem experiência de vida, sem noção de profissões, sem valores e sem saber escrever! Não tem sequer pesquisa, e se tem, é mínima. A protagonista começa fraca, rejeitada ou pisoteada e descobre um poder oculto avassalador, ou descobre-se que ela deixou de lado uma faculdade e sua genialidade pelo casamento; histórias onde a protagonista é forçada a ficar com algum homem por motivos financeiros ou negociações familiares. E tem ainda as que a protagonista salva o companheiro mas ninguém viu, e outra toma o mérito dela.
Fora a repetição, eu comecei a ler pelo menos 2 romances idênticos, só mudaram os nomes e a espécie (um era de humanos, outro de lobisomens). O algoritmo pune a originalidade. Se histórias de "alfa que rejeita a luna grávida" estão dando dinheiro, o app força todas as autoras a escreverem exatamente a mesma fórmula, soterrando a diversidade literária.
Inclusive, um segmento muito lido e que faz muito sucesso são as histórias de lobisomens.
Abre parênteses:
Até meados dos anos 2000, lobisomens na cultura pop eram monstros de terror (como em Anjos da Noite ou O Lobisomem).
Crepúsculo (o livro em 2005 e os filmes a partir de 2008) mudou tudo ao focar no Jacob Black. O universo de Stephenie Meyer introduziu para o grande público infanto-juvenil a ideia de lobisomens que andavam sem camisa, tinham calor corporal extremo, viviam com alcatéias enormes que moravam em colônias, comunicando-se por telepatia e tinham o conceito de "imprinting" (o precursor direto do conceito de "fated mates" ou parceiros predestinados).
Logo em seguida, a série The Vampire Diaries (2009) e seu spin-off The Originals popularizaram ainda mais os lobisomens agressivos, os alfas e a política de matilhas no formato de drama jovem.
Se Crepúsculo plantou a semente, foi a comunidade de fanfics e histórias originais do Wattpad (entre 2011 e 2016) que transformou isso no subgênero exato que a gente lê hoje nos aplicativos.
Escritoras amadoras começaram a misturar os lobisomens de Crepúsculo com romances eróticos/bDSM (fortemente influenciados por Cinquenta Tons de Cinza, que ironicamente nasceu como uma fanfic de Crepúsculo). Foi nesse caldeirão que os clichês se consolidaram:
A Deusa da Lua (Moon Goddess) é a divindade máxima criada por essas autoras de internet. Como precisavam de uma justificativa mágica para unir casais improváveis (geralmente um alfa abusivo/poderoso e uma mocinha indefesa/rejeitada), criaram a figura da Deusa da Lua como a entidade espiritual que "escreve o destino" e escolhe a alma gêmea de cada lobo.
A hierarquia rígida (alfa, beta, ômega e luna) foram padronizadas no Wattpad: existe um líder, que é o alfa, sua esposa se torna a luna (a rainha da matilha), os betas são os segundo em comando, os membros mais fracos ou funcionários são os ômegas.
Um dos subterfúgios dessa mitologia é a rejeição dos parceiros destinados (rejected mates). São as histórias onde o alfa rejeita sua parceira predestinada por ela ser fraca, e depois passa o resto do livro rastejando pelo perdão dela. São uma fórmula de sucesso estrondoso na plataforma.
Fecha parênteses.
E até aí ok, tá tudo certo. Mitos criam-se todos os dias. Crepúsculo não fez com que vampiros bebam sangue de animais e brilhem ao sol? Pois então, por que lobisomens não podem viver entre a sociedade? Tá tudo certo. Eu sou aberta a aceitar esse tipo de mudança, embora prefira os velhos hábitos das criaturas místicas. E eu entendo o delírio coletivo adolescente pelos protagonistas dessas séries, eu mesma adorei The Originals.
O problema é ter que adivinhar toda essa mitologia. Eu tive que ler vários livros (de todos que eu comecei, só terminei 1) para descobrir isso que eu escrevi aí em cima, que aliás eu pedi pro meu secretário (Gemini, a IA do google) pesquisar e entregar na minha mesa, pois na época que eu lia fanfics, eram outros temas (as melhores fanfics que eu li foram de Cassandra Clare, que infelizmente foram tiradas do ar quando ela iniciou sua carreira de escritora)...
E também são histórias sem pé nem cabeça... Pois no vínculo de casal, quando um dos parceiros trai, o outro sente uma dor excruciante, e quando rejeita também. E eu entendo que faz parte dessa mitologia criada.
Mas você tá lá, vendo a protagonista sofrendo e NADA dela tomar a vida dela nas próprias mãos, rejeitar o cara e sumir.
A esmagadora maioria dos enredos de lobisomem ou máfia envolve CEOs ou alfas que sequestram, humilham, agridem verbalmente ou trancam a protagonista. A narrativa quase sempre justifica esse comportamento como "instinto possessivo" ou "amor profundo", ensinando um público frequentemente jovem que a toxicidade é um sinal de romance. E os exageros, Meu Deus, tem coisa ali que ser humano nenhum faz, eu vou dedicar uma postagem só pra narrar alguns desses romances!
Diferente do conteúdo dos kindles, onde você compra um e-book ou assina e acessa o conteúdo gratuito, os apps de leitura tem histórias próprias de escritores desconhecidos, que usam nicks ao invés de nomes, ou então traduzem contos de outro idioma, sem uma adaptação correta (a maioria traduz de histórias chinesas).
A falta de revisão é um problema enorme. Textos com erros graves de gramática, furos de roteiro gritantes e inconsistências de personagens são comuns, já que não passam por um editor antes da publicação. Uma das histórias dá uma primeira descrição da protagonista sendo loira e depois, fala dos cabelos pretos dela. Num primeiro momento eu achei que tinha entendido errado, mas esses apps permitem comentários nos capítulos e ao entrar para ler, as leitoras estavam reclamando da mesma coisa.
Por volta de 2018 e 2019, empresas de tecnologia (muitas delas baseadas na Ásia, como a STARY, dona do Dreame) perceberam que o público do Wattpad consumia obsessivamente essas histórias, mas o Wattpad era majoritariamente gratuito.
Essas empresas criaram aplicativos com o modelo de micro-transações (pagamento por capítulo através de moedas virtuais). Elas começaram a minerar o Wattpad atrás de autoras de sucesso e a criar algoritmos focados especificamente em impulsionar livros com as palavras-chave que fizessem sucesso: alfa, luna, CEO, máfia, etc.
Como o modelo de negócios desses apps exige que os livros sejam gigantescos (às vezes com 500 ou 1000 capítulos curtos) para fazer o leitor gastar mais moedas, as autoras passaram a usar subterfúgios, como uma estrutura infinita de novelas mexicanas: cheia de reviravoltas, sequestros, traições e reconciliações, inclusive com repetições de cenas, de coincidências absurdas (uma moça sequestrada 2 vezes pelos mesmos bandidos e salva 2 vezes pelo mesmo cara; uma criança precisando de um transplante de rim no mesmo hospital da filha da amante do marido, que também precisa do mesmo transplante).
Para que o algoritmo desses aplicativos continue recomendando uma obra, a autora precisa publicar novos capítulos diariamente. Essa pressão destrói o processo tradicional de edição. O algoritmo exige atualizações diárias (geralmente de 2.000 a 4.000 palavras por dia).
Sendo uma tradução de outros idiomas – depois eu falo dos brasileiros - a encheção de linguiça (padding) desses romances é notório. As histórias são deliberadamente esticadas. Tramas que poderiam ser resolvidas em 200 páginas ganham reviravoltas absurdas, sequestros repetitivos e amnésias temporárias apenas para gerar mais capítulos cobráveis.
Os títulos são muito estranhos! Como a maioria dessas plataformas é internacional (muitas baseadas na Ásia ou nos EUA), mesmo quando os livros são traduzidos para o português, os títulos costumam manter uma estrutura bem literal e americanizada para ajudar o algoritmo de busca interna do aplicativo.
Não são títulos como os romances de banca antigos eram – pequenos, que levem ao entendimento do público. Mesmo com a tradução, ficava algo simples, que remete a uma história de amor. Para exemplificar, “águas profundas”, “amantes por uma semana”, “para sempre na lembrança” ou “desafio do desejo”; como eu disse, pequenos, remetem à uma história de desejo e romance.
Citando alguns dos títulos de livros dos apps: “A vingança doce quando você é uma zilionária”, “A babá é a mais nova obsessão do CEO”, “Apaixone-se pela garota sem lobo à primeira vista”, “Contratei uma babá e ela era minha noiva fugitiva”.
Quando a gente navega na internet pelo celular, aparece propaganda desses apps e uma parte do romance; a gente acaba lendo e se envolve – pois o chamariz está justamente nos primeiros capítulos - baixa o app aí cai na armadilha: vê-se que, ou aquela parte não existe ou a narrativa acaba tomando outro rumo.
Algumas iniciam super bem, mas a narrativa cai e fica confusa, fraca e cheia de repetições, situações impossíveis e ridículas. Cansativas. Sem continuidade coerente. Sem dar passos rumo a um desfecho. Um casamento que era maravilhoso, de repente se torna um pesadelo, sem sequer uma explicação. Do nada surge um elemento que não estava na narrativa, para dar ênfase em algum ponto, e ele some como surgiu.
É como se várias pessoas escrevessem uma parte da história.
E tem romance brasileiro? Tem sim, claro que tem! O puro luxo do lixo, nem a Globosta consegue criar uma narrativa tão merda quanto essas autoras.
A estrutura narrativa desses livros é praticamente uma cópia carbono dos livros de lobisomem ou de máfia italiana, mas com uma roupagem local:
O protagonista dominante, em vez do "alfa" ou o "CEO bilionário", passa a ser o "dono do morro" ou o "chefe da facção". Ele mantém exatamente os mesmos traços psicológicos: é possessivo, perigoso, temido por todos, mas "completamente rendido" pela protagonista.
A mocinha indefesa geralmente é a "garota inocente" da comunidade, a estudante trabalhadora ou a jovem que se vê obrigada a pedir ajuda ao chefe do local por conta de uma dívida da família (uma versão realista do clichê da "parceira rejeitada" ou "comprada").
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| Autora brasileira |
Em vez de guerras entre bandos de lobos, disputas do mercado financeiro, ou da máfia de Nova York, o enredo se alimenta de operações policiais, invasões de facções rivais e traições dentro do próprio grupo.
E aparentemente fazem sucesso (confesso que nunca li nenhum, estou me baseando em pura pesquisa), pois diferente dos livros traduzidos da Ásia ou dos EUA, que soam mecânicos, esses romances usam gírias brasileiras reais, referências a músicas atuais (como o funk e o trap) e cenários cotidianos. O leitor se identifica imediatamente com o ambiente.
Abre aspas:
Quem se identifica com o ambiente é favelado, por favor né?
Eu já li livro brasileiro e me identifiquei sim, com as citações de livros, as músicas, os locais, mas era um livro que se passava numa sociedade normal, não no morro. Oras!
Fecha aspas.
O arquétipo do protetor perigoso funciona no mesmo nível psicológico dos romances de época com piratas ou dos livros de motoqueiros americanos. É a fantasia de estar romanticamente ligada ao homem mais poderoso e perigoso daquele microssistema, que usará toda a sua violência para proteger a mocinha e mais ninguém.
E sim, caramba, era uma fórmula genial, li vários assim, mas ainda assim, um dono de morro? Um mafioso? Onde essas meninas estão com a cabeça? Nossos velhos romances mostravam motoqueiros mal encarados envolvidos com mocinhas da cidade local, ex bad boys, arrependidos, prontos para uma redenção.
A romantização da criminalidade e da violência faz parte desses romances e é fato que esses livros transformam a dura realidade da violência urbana, do tráfico de drogas e do sofrimento das periferias em um pano de fundo "glamoroso" e excitante para o sexo e o romance.
Tem também um enredo que costuma exaltar a figura da "fiel" (a mulher oficial do traficante, que aceita tudo e sofre em silêncio) em oposição às "marias-fuzil" ou rivais, que são tratadas de forma extremamente degradante e violenta pelo texto. Da mesma forma que as histórias americanas, asiáticas... No fundo a fórmula é a mesma, só muda o cenário.
Para além da favela, autoras brasileiras também dominam o nicho de romances de época (regência) e os romances de CEO. Livros que envolvem casamentos por contrato com herdeiros de empresas em São Paulo ou Rio de Janeiro, romances de comédia romântica no estilo "inimigos que se amam", têm um público gigantesco e ajudam a descentralizar um pouco o peso dos temas mais violentos nas plataformas.
O conteúdo dessas histórias é alvo de pesadas críticas sociais e psicológicas.
Por trás dos panos, o mercado para quem escreve é descrito por muitas comunidades de escritores como uma "fábrica de texto exaustiva". Muitas plataformas compram os direitos autorais universais da obra por valores baixos, impedindo a autora de publicar seu próprio livro em outros lugares ou adaptá-lo no futuro.
Enfim, a nova literatura popular parece ser mais um desserviço ao consumidor do que uma forma de cultura, e eu digo isso com desgosto. Não enriquece vocabulário, não acrescenta em literalmente nada na bagagem cultural do leitor, o que é uma pena sob muitos aspectos, pois
essa geração é a pior em termos evolutivos.
Parte V