quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 Um dia, muitos anos atrás, meus avós decidiram que não iam mais morar sozinhos, por questões de saúde, dependência, etc, e cometeram o maior erro que idosos fazem: foram morar com um dos filhos.

Erro, pq o idoso está acostumado com sua casa, seu canto, sua rotina, sua independência, e quando passa a morar com um dos filhos, sai disso e vai para um espaço com regras novas, rotina nova, num lugar "desconhecido", e acaba que não dura muito tempo. Bom, batata, foi o que aconteceu com eles. Pouco tempo depois da mudança, meu avô ficou doente e faleceu e minha avó decidiu morar com a irmã, porém caiu da escada e danou-se tudo depois disso. 

Mas o que eu quero falar não é sobre isso, e sim sobre quando eles desmontaram a casa. Vários móveis que, de acordo com meus tios, estavam cheios de cupim, mas foram vendidos para o vizinho.

Muitas coisas foram divididas: poltronas, quadros, louças, roupas de cama... Teoricamente éramos 3 herdeiros: tia, tio e eu (representando meu pai) mas meus tios simplesmente ligaram o FODA-SE, pegaram o que tinha de melhor e deixaram O RESTO pra mim. Detalhe que eu disse "para mim" mas só deixaram coisa "pra mim" pq eu paguei um caminhão baú e pedi pra um amigo meu ir buscar as coisas, ele simplesmente CATOU TUDO QUE SOBROU e que ia ser doado/jogado fora, e trouxe ("vem buscar esse final de semana, pq vai ser tudo doado").

Até coisas QUE ERAM MINHAS (como uma cadeira de madeira que veio do apartamento do Guarujá, que teoricamente era nossa mas ficou com a minha avó), pegaram.

Na verdade pegaram tudo que tinha de bom, e deixaram a quinquilharia para trás. Comigo ficou (que vale a pena mencionar) um jogo de mesa com 4 cadeiras, uma estante que ficava no quarto do meu avô com livros (disseram que era do meu pai), algumas roupas de cama e toalhas desparelhadas, muitas panelas velhinhas (inclusive uma frigideira onde vovó fazia caldinha de chocolate), uma panelinha com biquinho onde ela esquentava leite da minha mamadeira (ééé, eu lembro), muita louça desparelhada também (um prato fundo com um pato desenhado que é o prato preferido da Carol), umas xícaras de vidro e de um outro material, um plástico duro amarelo... Cara, eu lembro da minha avó usando esse jogo de xícaras... 

Vieram também alguns itens que eu amei quando criança: os baralhos KEN das noites de jogatina (que estão inutilizados, de tão velhos, grudaram, coitados, outros quebraram, mas não tive coragem de jogar fora); a sopeira de ágata verde com peixes desenhados; a forma de biscoitos quadrada, cheia de desenhos, que eu brincava quando criança; apoios de talher e pequenas colheres de prata(?); alguns copos de cristal inclusive, que foram do meu avô; um jogo de garrafa e copos de whisky; balde e pegador de gelo de alpaca(?); pratos decorativos de parede; uma colcha de cama de solteiro, toooda colorida, que era o meu xodó, e o edredom que minha avó usava; algumas peças antigas de louça totalmente aleatórias; um sofá cama que teve um fim trágico aqui. 

Enfim, coisas que eu até curti ter pego, mas que não foram exatamente o que eu queria. Teve coisas ali que eu queria MUITO, e cheguei a perguntar pro meu tio onde estavam, e a resposta foi uma zombaria só sem uma resposta definitiva.

Mas o que esperar de alguém que pegou um CD do Mozart emprestado para colocar pro filho ouvir ainda na barriga da minha tia e nunca devolveu (ahh, meu pobre CD, deve ter virado lixo, pq esse tio entende tanto de música clássica quando eu entendo de física quântica) e o xadrez eletrônico do meu pai "como lembrança", sendo que o estúpido NUNCA jogou xadrez na vida (ok, eu também não jogo, mas era do MEU PAI aquilo).

Meus avós tiveram (ou guardaram) coisas que eu queria MUITO, como o binóculo que vovô levava ao jóquei para assistir os páreos (pensa num binóculo bom, pesado, top mesmo, profissional). Os jogos que eram a atração de domingo (Master, War e banco imobiliário). "Ahhh, mas você pode comprar todos eles de novo", sim eu sei que eu posso e inclusive meu banco imobiliário tem até maquina de débito, e meu WAR é um dos mais modernos, mas NÃO SÃO os jogos que percorreram aquelas tardes de domingo (besta eu, sentimental).

O quadro que minha avó tinha no pé da escada, retratando Jesus Cristo. Mas esse eu sabia que não ia ser meu nunca, inclusive entre eles lá saiu desavenças e indiretas. Engraçada a hipocrisia dos herdeiros, querem ver?
NENHUM dos meus tios deveria realmente ficar com um quadro daqueles, pois uma delas é SABOR CATÓLICA (socialista de sofá, bebe champagne enquanto debate sobre a desigualdade social do alto de seu apê caríssimo num dos melhores bairros de SP).
Já o outro tio e sua esposa nem sabor cristão, são. Ela é espírita e ele deve acender uma vela pro capeta e outra pro Lula (ah, perdão, soltei um pleonasmo aqui). Mas enfim, eles ficaram com o quadro de Jesus e a outra tia sabor católica fala horrores quando lembra do assunto.

Pratos da Bavária desenhados â mão. Essa história é engraçada, uma das últimas vezes que fui pra SP, meu tio preguntou se eu não queria os pratos, estavam encaixotados, eu trouxe. Era um jogo lindíssimo mas estavam faltando algumas peças, o que tornava IMPOSSÍVEL sua venda por um bom valor (acreditem, eu tentei). E os pratos ficaram aqui, anos e anos, até que um dia, numa das conversas com a tia, ela disse que seu irmão (o tio que me deu os pratos) tinha se desfeito dos pratos da Bavária, que eram dela e que ela pediu para ele guardar pq na época ela morava em um apartamento pequeno e não cabia.

O pior, é que ELE não sabia onde os pratos estavam nem oque havia acontecido com eles (ele esqueceu que me deu) e ELA soltando os cachorros, falando que ele tinha vendido os pratos (tinha sopeira, molheira, era um puta jogo lindo). Aí eu falei que tinha uns pratos aqui e mandei a foto, e eram eles. Ela ficou super sem graça pois já tinha xingado horrores. Obvio que enviei os pratos à ela (eu jamais ia usa-los, chiques demais) e acabei ficando com um segundo jogo (nacional) simples de pratos brancos desenhados em cinza, com detalhes prateados, que inviabilizam sua utilização em micro-ondas (por isso dei-os à avó da Carol) e uns 3 ou 4 pratos de louça, tão antigos que até o desenho já se apagou (esses eu fiquei). 

Gostaria de ter ficado com os quadros da sala. Não eram obras de arte, não eram caros, pelo contrário, eram imitações de quadros famosos, mas que, para mim, eram a alma da sala (junto com os abajures, que também não sei para onde foram). 

Algumas peças que vieram para cá são também uma coleção de recordações perdidas: uma caixa de madeira com coisas do meu pai, um porta joias que tocava música, mas que perdeu sua bailarina à muito tempo. Uma caixinha redonda de madeira aveludada por dentro com o nome "Philomena" na tampa: a tia Filó, meu maior remorso infantil (eu maltratava a coitadinha e passei anos chorando e pedindo perdão depois de adulta). Um dos banquinhos acolchoados que minha avó tinha em casa, uma bomboniere que ficava na mesa de jantar, um "cesto" de vidro que meu avô deu de presente pra ela (e que eu a ouvi dizer que achava horroroso, mas foi ficando)... 

Mas por que eu lembrei de tudo isso e trouxe todo esse assunto justo agora, depois de tanto tempo?
É que eu achei uma das toalhas que vieram de SP. Uma toalha mostarda e branca com um bordado. Era um jogo de corpo, rosto e chão e vieram - assim como as roupas de cama - embaladas em uma sacola. 
E quando eu abri a sacola, lá estava: o cheiro deles. O cheiro do amaciante que minha avó usava, seja ele qual fosse, e que estava em todas as suas roupas: do corpo, de cama, de banho. 
O cheiro que eu sentia quando ia dormir lá, o cheiro que embalava meu sono e me trazia pensamentos de segurança, família, amor. O cheiro da minha avó. O cheiro da roupa deles. Um cheiro que me trazia tudo isso de volta quando eu abria a sacola. 
Passei um ano sentindo esse cheiro, abrindo e fechando a sacola. Digo um ano, mas talvez seja mais, ou menos. E cada vez que eu abria e sentia aquele cheiro, chorava agarrada na bendita sacola.
O fato é que um dia, o cheiro sumiu. O tempo o levou. Não levou as lembranças, mas eu não tinha mais aquela ancora de referência, e acabei colocando as toalhas e lençóis em uso. 
Muito velhas e gastas, as roupas de cama estavam tão finas que rasgaram. Sobrou talvez uma ou duas fronhas, que inclusive eu usei para os travesseiros da minha mãe quando ela ficou de cama - era um material leve e fresco. 
Agora a toalha também está indo. Gasta, desfiada, mas firme. Como um lembrete do passado.

Coisas que, quando eu me for, não serão importantes para mais ninguém. 

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