terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pra resumir, dia 09/09 o médico veio em casa e detectou uma infecção de urina na minha mãe. No dia seguinte ela foi internada na Santa casa de Birigui, onde ficamos até o dia 06/10.
Foi até bom, apesar de cansativo. Observei as enfermeiras, ajudei, aprendi muitas coisas ali, como fazer curativo, trocar a fralda, trocar a roupa de cama, colocar traçado, colocar a comida...

Por esse lado, foi bom.

Vi gente morrendo, gente brigando, gente desesperada. Vi gente sozinha, sem ninguém acompanhando, vi gente sem esperança, vi gente de todos os tipos, religiões, amigos, desconhecidos que se tornaram conhecidos... Vi várias coisas lá dentro que não me fizeram melhorar o astral.

Não é que "tem casos piores" que o "nosso", mas tem casos bem graves lá. Terríveis. Gente que entrou e não saiu. Foda.

Fora isso, não tenho vontade de fazer nada. Nem escrever aqui.
Só me senti tão desmotivada assim quando tive depressão, e mesmo naquela época, eu entrava na internet e escrevia no blog.
Agora, não tenho vontade.

sábado, 3 de setembro de 2011

A correria é tanta e a adaptação é tão difícil que só hoje eu estou tendo tempo pra escrever.

O fato é que minha mãe teve alta e veio pra casa.

Como assim, alta? Mas ela não estava incapacitada? Deitada? Sem movimentos?
Sim, ela está tudo isso, e está também com um tubo de traqueostomia de metal e uma sonda naso enteral, mas teve alta assim mesmo.

Inicialmente eu assustei, quando o médico disse que depois da cirurgia ela ia ter alta. Pensei em entrar com um recurso pra conseguir que ela ficasse mais tempo no hospital. Mas aí eu conversei com o médico, e ele disse que tudo que ele podia fazer pela minha mãe, ele fez: cirurgia de válvula para o escoamento do líquido que deu a hidrocefalia. Clinicamente ela está bem, não tem infecção, está numa fase ótima pra ser mandada pra casa. Se ela ficasse mais tempo na Santa Casa, poderia ter mais infecções.

E então eu pensei, "eu pedi tanto, rezei tanto pra ela voltar pra casa comigo, meu pedido está sendo atendido, e eu vou negar a ela a chance de se recuperar em casa, a chance de eu fazer por ela tudo que eu puder?"

Então, dia 23 de agosto ela veio pra casa.
Arrumei uma cama de hospital, um colchão de ar (grande cagada a minha, ele deixa o corpo muito instável), lençóis grossos pra fazer de traçado... ganhei soro fisiológico, 1 litro de leite de soja pra alimentação enteral, uns drenos, frascos...
E ela veio de ambulância.

Contratei a Sônia, mãe da Maraysa, pra me ajudar a trocar e cuidar dela (esse "ajudar" é maneira de falar, ela faz quase tudo sozinha).

A primeira noite pareceu um pesadelo. Ela estava com dificuldade pra puxar o ar, tinha que ser "aspirada" e eu não sabia a quem recorrer. Passei a noite sentada, olhando pra ela, esperando a hora que ela ia sufocar e morrer na minha frente sem eu poder fazer nada...

No dia seguinte, arrumei uma fisioterapeuta pra fazer não só as aspirações, como também as sessões que ela precisa, respiratórias e motoras.
Depois de uma semana e pouco, achei que a Meyre está mexendo bem mais as pernas e respirando de forma mais leve.

Contratei também um enfermeiro pra dar banho, porque precisa ter prática e FORÇA FÍSICA pra lidar com ela.
A Ciça tem levado os lençóis pra lavar na casa dela (ela tem máquina de lavar).

O que eu faço então, já que deleguei todas as tarefas mais importantes aos outros?
Corro atrás dos remédios, exames, material... Não deixo faltar nada, desde os legumes pra sopa dela, até as fraldas, as sondas, soro, óleo de girassol pra escara...
Sexta passada fomos de ambulância fazer um eletrocardiograma, pra poder requisitar um cardiologista, porque a pressão dela tá super instável.
Consulta, agora, só dia 6/9. Enquanto isso, dou meu remédio de pressão pra Meyre, de 12 em 12 horas.

A primeira semana passei atrás de requisições, consultas com médicos, etc, porque eles terão de vir em casa fazer visitas. Não dá pra simplesmente colocar ela no porta malas do carro e levar pras consultas...

De noite eu acordo direto pra ver se o tubo de respiração tá entupido de secreção, geralmente tem que limpar.

Fora isso tudo, tem a Anna Carolina. Parece que ela adivinha os horários de colocar comida ou trocar a Meyre, porque ela sempre acorda nesses mesmos horários.
Aliás ela e a avó entaram numa troca de alimentos: Meyre bebe o leite de cabra da Anna, Anna toma a sopa de legumes da Meyre.

Enfim, entre idas, vindas e tudo mais, agora minha vida deu uma "aliviada" (entre aspas mesmo, afinal nunca se sabe o amanhã), mas a primeira semana foi FODA.

No primeiro dia, dia de adaptação total, nós conseguimos sujar 8 lençóis. Lavei tudo no tanquinho.
Meu tempo estava tão curto que eu e a Anna aprendemos a tomar banho juntas, de chuveiro. Tirando o bicão de choro do primeiro dia por ver aquela cascata caindo, ela tem adorado as chuveiradas.

A Sônia adora ela e ela adora a Sônia.

Quanto a mim, tenho tomado meu remédio da pressão, mas eu sinto que ela não baixa totalmente.
Meu cabelo anda caindo aos tufos, parece aquela época quando eu tinha acabado de operar...

Fabio viajando a semana toda pra ganhar a vida. Não posso nem reclamar, esse final de mês foi ele que conseguiu abastecer a despensa.
A Paola ajudou com um depósito no dia primeiro, época que eu ando mais dura possível, porque nossos salários caem no terceiro e quinto dias úteis.
Nem grana pros legumes eu tinha!

Tenho escutado punk rock, eu, que nunca gostei desse gênero musical. De acordo com o Ivo, eu "entrei em sintonia", porque minha vida "tá punk".

Senti uma saudade enorme do tempo que andávamos eu, ele, Toni, Robinson, Filé, MT, Ellen, Shirov, Fuba, Torres, Piru, Kenga, Renato...
Aliás, eu, Shadai, Northrop, J0ker, X-Files, MT (nunca teve nick, ou antes, ela teve tantos nicks e nunca se acertou com nenhum rss), Killer Girl, Shirov, pedepano, The Devil, piru, Kenga (qual era o nick do Kenga mesmo? Sniper?), Nimzovich, Saita...
A gente saindo pra pixar muro, indo na Lan House do Podre, organizando IRContro, jogando UO ou simplesmente ficando parado na avenida, olhando o movimento e enchendo a cara. Tudo era divertido. Tudo era engraçado.

Do pessoal que vinha em casa (Márcio e Marcela, Juliana e Robinson, Gustavo e Drica, Trini, Ronaldo, Fábio e Isa, etc) não sinto saudades não. Isoladamente, sim, como no caso do Gustavo e dos nossos intermináveis papos, mas como um todo, não, não sinto.

Parece que, na época, minha vida era mais simples - e era mesmo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hoje eu fui fuçar em algumas gavetas da Meyre e fiz uma triagem, peguei umas camisetas de gola desbeiçada, calças velhas, soutiens esgarçados, adeus, doei tudo.

Quando você se livra de roupa velha, a energia da casa renova-se e roupas novas entram na sua vida. Meio complicado de explicar, mas real.

Enfim, comecei a fazer essa triagem mais pelo cheiro de mofo que está no armário. Abri gavetas, desci cabides lotados.
A maioria das roupas era dela, óbvio, mas tem muita coisa minha ali.

Meyre, a eterna otimista que guarda roupas durante anos a fio achando que a gente vai emagrecer pra voltar a usá-las.

Encontrei ali tailleurs que nem sonhava que ainda estivessem conosco.
Achei 2 vestidos que eu simplesmente adorava, o preto transparente e o prata, ela teve coragem de guardar aquele vestido prata!
Roupas de batique do Ceará, camisas e vestidos.
Calças de todos os tipos de tecido, moletons e camisas de seda.

Mas o máximo foi encontrar, depois de tantos anos, a camiseta que foi, durante muito tempo, a minha preferida.
Era uma camiseta preta com desenhos prateados, que minha avó trouxe dos EUA pra mim a anos e anos atrás, morávamos em SP ainda.
Bom, usei essa camiseta durante muito tempo, e quando ela não serviu mais, acredito que minha mãe pegou pra ela e usou, mas eu nunca imaginei que ainda estivesse aqui, numa gaveta.
Desbotada, o brilho dos riscos prateados muito fraco, mas sinceramente não tive coragem de doar essa.

Ver as gavetas do armário da minha mãe é ver uma vida de lembranças: roupas do tempo que morávamos em SP, quentes demais pra essa região; bermudas jeans, roupas que vieram da Tia Missina, roupas que ela mandou fazer em Catanduva.
Tem até um sobretudo que ela trouxe de Madrid, deve ter sido a única coisa que sobrou da época que ela e o Márcio moraram lá...

Hoje fui lá e tive permissão pra cortar as unhas dela.
Na próxima visita, vou levar algumas letras de música e cantar pra ela.

Estou esperando o médico marcar a cirurgia, mas a infecção na urina não cedeu ainda...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Hoje, pela primeira vez desde aquele que eu chamo de "dia do pesadelo", minha mãe abriu os olhos pra mim.
Não foi nada mágico, "ohhh, ela abriu os olhos, me encarou e então 2 lágrimas rolaram", nada disso, foi super rápido e bem pouco, mas ela abriu os olhos!

Assim que a cultura de bactérias que ela desenvolveu for combatida, vão colocar uma válvula, um dreno, no cerebro dela pra tirar o líquido acumulado lá.

Muito muito animador.
Tô bem feliz hoje.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Eu sei que, nesse momento, eu deveria orar pedindo o melhor pra minha mãe. Colocar nas mãos de Deus, que ele sabe o que é melhor pra ela, e tipo, praticar o desapego, mas isso ainda está além das minhas forças.
Eu ainda acredito que ela vai acordar e voltar pra casa, que seja, com sequelas, mas é nisso que eu acredito.

sábado, 18 de junho de 2011

Hoje completa um mês que a Meyre está internada.

Ela saiu do coma, mas é algo muito "sutil": não abre os olhos facilmente, não responde... O Glasgow continua em 5.

sábado, 11 de junho de 2011

Hoje na visita a Meyre quase abriu os olhos. Ficaram meio semicerrados. E ela tossiu, passou a língua pelos lábios e suas pálpebras estão mais ativas.

Embora eu não deva me animar, estou, sim, MUITO animada com uma recuperação.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Eu nunca imaginei muitas coisas para a minha vida.

Nunca me imaginei órfã de pai, e no entanto, fiquei.
Nunca achei que fosse casar e, no entanto, casei.
Nunca achei que fosse ter filhos e, no entanto, tive.
E nunca, nunca achei que fosse ver minha mãe em coma e, no entanto, é como ela está.

Só quem vive isso sabe como é. Ver a pessoa que você ama ali, dormindo, um sono pesado, sem respostas quando a gente chama.

A lesão cerebral dela foi extensa, então o que me falaram é que os danos deixarão sequelas muito grandes, SE ELA SOBREVIVER.

A cada visita eu me animo, para depois ouvir que ela pode não sobreviver ao dia seguinte.

Hoje eu levei uma foto enorme da Anna Carolina com 1 mês pra ela ver, e a minha sogra foi junto. Quando minha sogra mostrou a foto e nós falamos como a nenê estava linda, grande e que ela precisava sair dali pra ajudar a cuidar dela, 1 lágrima rolou de cada olho.

Quando eu implorei pra ela não me deixar, pra sair dali e voltar pra casa porque eu não estava preparada pra deixar ela ir, ela franziu a testa.

Pedi perdão por não ser uma boa filha, por não ter levado ela num médico, por não ter me preocupado com a pressão alta dela...

Eu perguntei pra enfermeira se todos os movimentos dela eram involuntários e a enfermeira disse que não, que ela percebe nossa presença ali e algumas respostas emocionais são voluntárias, que ela quer responder, mas não consegue acordar do sonho brumoso em que ela está.

Pedir pra deixar ela livre é pedir demais pra mim.
Eu ainda não estou pronta pra isso.

De todos os grandes filmes que Sam Neill fez, eu me recordo do eterno professor Grant de Jurassic Park e Richard Martin, "pai" do ...